Mejillones: do guano ao salitre, camadas de história na costa do Chile

Do molusco que batizou a cidade às jazidas de guano e ao Combate Naval de Angamos, Mejillones acumula histórias na costa chilena.

O nome Mejillones nasce do mar. Ele deriva do bivalve Choromytilus chorus, conhecido no Chile como choro ou mejillón, molusco abundante nos bancos rochosos da costa e dieta primordial dos antigos habitantes da região. Quem caminha hoje por suas praias encontra, no próprio nome da cidade, o rastro de um povo que aprendeu a viver do que a pedra e a água ofereciam.

A presença humana nessa faixa costeira é antiga, e já aparecia nos relatos de quem chegou depois. Mejillones figurava em crônicas coloniais do século XVI, como nas narrativas do cronista espanhol Pedro Cieza de León, em 1550 — registro que atesta que a costa já era conhecida e descrita muito antes de qualquer traçado urbano.

Foi o guano, porém, que colocou a região no centro de disputas. A demanda europeia por fertilizantes fez a atividade explodir e levou o presidente do Chile, Manuel Bulnes, a promulgar a Lei de 31 de outubro de 1842, que declarava propriedade nacional chilena sobre as jazidas de guano até as cercanias do paralelo 23°S, deflagrando tensões fronteiriças prolongadas com a Bolívia. Anos depois, em 24 de dezembro de 1862, a Intendência de Atacama concedeu formalmente uma faixa de terra de 300 por 100 metros no setor de La Caleta à sociedade mineira composta por Juan López, Matías Torres e Juan Garday, após a descoberta de jazidas de guano vermelho no Morro de Mejillones.

Águas de Angamos

Em 8 de outubro de 1879, nas águas da península de Angamos, em frente a Mejillones, ocorreu o Combate Naval de Angamos, durante a Guerra do Pacífico. Unidades da esquadra chilena lideradas pelos encouraçados Lord Cochrane e Blanco Encalada cercaram e capturaram o monitor peruano Huáscar, combate que culminou com a morte do almirante peruano Miguel Grau Seminario. O combate garantiu a hegemonia naval do Chile no conflito. No dia seguinte, 9 de outubro de 1879, faleceu Domingo Johnson Rodríguez, sepultado no cemitério costeiro de Mejillones e registrado como a única baixa fatal da tripulação do Cochrane.

Já no século XX, foi a vez de o porto redesenhar o próprio destino. Diante da superlotação do porto de Antofagasta para escoar os nitratos do deserto, o presidente chileno Germán Riesco assinou em 7 de fevereiro de 1906 a ata de refundação de Mejillones sob administração do Estado chileno.

A empresa britânica The Antofagasta and Bolivia Railway Company, a FCAB, obteve concessões para construir uma ampla estação com oficinas ferroviárias, habitações para operários e dois píeres de embarque de minério, integrando Mejillones às rotas globais do ciclo do salitre. Entre trilhos, píeres e o azul do Pacífico, a cidade segue contando suas camadas — do molusco que lhe deu nome ao minério que a levou ao mundo.

Fontes

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