Folclore de Salta: as lendas de Esteco e o mito de El Familiar
Na província argentina de Salta, a tradição oral fala de uma cidade punida pela vaidade e de uma mulher transformada em pedra; em Orán, o mito de El Familiar ronda os canaviais.
Há em Salta, no noroeste da Argentina, um folclore que se ouve mais do que se lê: histórias passadas de boca em boca, misturando paisagem, memória e assombro. Duas dessas narrativas se destacam para quem percorre a região — a das ruínas de Esteco e a de El Familiar, nos canaviais de Orán.
A cidade que a tradição diz ter sido punida
Conta a tradição oral de Esteco que o colapso da cidade foi uma punição divina pela vaidade de seus habitantes, que teriam desdenhado dos alertas do missionário São Francisco Solano. É uma história de advertência, dessas que se contam ao pé do fogo, e não um relato histórico.
Segundo a lenda de Esteco, uma mulher piedosa foi resgatada com o filho nos braços sob a condição de nunca olhar para trás; ao desobedecer, transformou-se em rocha. O conto popular vai além: diz que a figura de pedra da mulher se desloca um passo por ano em direção à capital de Salta — um movimento lento, quase invisível, que a imaginação popular mantém vivo.
O que está documentado
Do outro lado da fronteira entre mito e pesquisa, os vestígios arqueológicos de Esteco I e II são fatos documentados e pesquisados pelo Museu de Antropologia de Salta. É ali que a curiosidade do viajante encontra chão firme, sem que a lenda perca o seu encanto.
El Familiar, entre os canaviais
Mais ao norte, em torno do Ingenio San Martín del Tabacal, no departamento de Orán, consolidou-se o mito de El Familiar. A lenda é analisada pela antropologia argentina como metáfora mítica das violentas relações de exploração fabril nos canaviais — leitura que dá à história uma densidade que vai muito além do susto.
Ouvir esses relatos pelo caminho é deixar que a viagem ganhe uma segunda camada: a das vozes que, geração após geração, insistem em contar o que a paisagem guarda.