Histórias da Rota: o folclore de Campo Grande entre a fé, o medo e a memória

Das águas que corriam aos pés de uma imagem sacra às aparições na Morada dos Baís, Campo Grande guarda histórias que misturam devoção, crime e assombro.

Quem caminha pelo centro de Campo Grande passa, sem perceber, por camadas de histórias que a cidade conta há gerações. Elas começam no Cemitério Santo Antônio, o mais antigo da capital, fundado em 1872 na região central — ponto de partida de uma das tradições mais curiosas do folclore local.

A gruta que vertia água e fé

Conta a tradição que um jazigo em formato de gruta ou capela, construído com pedras naturais da região, entre arenito e quartzo, mantinha em seu interior um oratório onde uma vertente d'água escorria permanentemente aos pés de uma imagem sacra. Segundo a lenda, o local atraiu décadas de romaria popular, com pessoas que levavam recipientes para recolher aquela água na esperança de curar enfermidades.

O caso que virou processo

Ao lado das histórias de devoção, a cidade também guarda páginas sombrias. Em 11 de janeiro de 1969, a polícia civil da Delegacia de Amambaí prendeu a moradora Célia de Souza, no bairro Vila Afonso Pena, após denúncias de homicídio e supostos rituais de magia com crianças. O caso tramitou como o Processo Criminal nº 22/69, registrado pelo projeto Memória Judiciária do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ-MS).

Alianças, bolo e o feriado de 13 de junho

Nem só de assombro vive o folclore campo-grandense. A tradição do Bolo de Santo Antônio com alianças foi criada em 1999 pela paroquiana Maria de Lourdes Furtado, em conjunto com o padre Orlando Knapp, para a festa de 13 de junho, feriado municipal de Campo Grande.

Os passos no sobrado

No Centro, o sobrado Morada dos Baís, na esquina da Avenida Noroeste com a Avenida Afonso Pena (nº 5.140), foi construído entre 1913 e 1918 pelo comerciante e intendente Bernardo Franco Baís. O imóvel foi tombado pelo município por meio do Decreto nº 5.390, de 4 de junho de 1986. Desde o tombamento e a transformação do casarão em centro cultural, relatos orais de vigilantes, zeladores e pesquisadores apontam aparições do espírito de Lídia Baís, passos nas tábuas do piso superior e acordes de piano ouvidos de madrugada.

O vulto sobre os trilhos

Na zona sudeste, o Pontilhão do Jardim Itamaracá, estrutura ferroviária no limite do bairro com o anel rodoviário, serviu por décadas como ponto de descarte em crimes violentos. A tradição oral afirma a presença de um vulto correndo sobre os trilhos na madrugada e lamentos atribuídos a almas penadas que teriam morrido na região — o que levaria moradores a evitar a travessia após o pôr do sol.

Fontes

Últimas notícias