Jujuy: do Êxodo de 1812 ao ferro de Zapla, camadas de memória

Da marcha a pé de 330 km em 1812 à primeira corrida de ferro-gusa da Argentina: Jujuy guarda bandeira, esculturas e lenda.

San Salvador de Jujuy tem seu primeiro capítulo datado: em 20 de agosto de 1561, a cidade foi fundada com o nome de Ciudad de Nieva, por Juan Pérez de Zurita e Gregorio de Castañeda. É a partir desse marco que a capital jujeña começa a contar sua história, antes de viver aquele que talvez seja o episódio mais radical de sua trajetória.

O Êxodo Jujeño

Diante do avanço de 3.000 soldados realistas liderados pelo brigadeiro Pío Tristán, o general patriota Manuel Belgrano emitiu uma proclamação convocando a evacuação total de Jujuy. Em 23 de agosto de 1812, no episódio conhecido como Êxodo Jujeño, a população inteira de Jujuy incendiou suas plantações, destruiu depósitos, recolheu rebanhos e marchou a pé cerca de 330 km até a província de Tucumán, na tática de terra arrasada que viabilizou a vitória patriota na Batalha de Tucumán.

Uma bandeira como tributo

Em 25 de maio de 1813, o general Manuel Belgrano doou ao Cabildo de Jujuy a Bandera Nacional de la Libertad Civil, uma bandeira de cetim branco com o brasão da Assembleia do Ano XIII, como tributo ao sacrifício civil da população no Êxodo de 1812 e nas batalhas de Tucumán e Salta.

Ferro, eucalipto e Zapla

No município de Palpalá, a 13 km de San Salvador de Jujuy, sob o comando do general Manuel Nicolás Savio e da Dirección General de Fabricaciones Militares, realizou-se em 11 de outubro de 1945 a primeira corrida de ferro-gusa (primera colada de arrabio) da história argentina, em Altos Hornos Zapla. A usina utilizava minério de hematita da mina local 9 de Octubre, na Serranía de Zapla, e carvão vegetal produzido a partir de um reflorestamento próprio de cerca de 15.000 hectares de eucaliptos.

As esculturas de Lola Mora

Após controvérsias estéticas e políticas na capital federal, as esculturas de Lola Mora foram retiradas e doadas a Jujuy, sendo instaladas em 1922–1924 em torno da Casa de Governo de Jujuy e em praças da capital: quatro esculturas — La Libertad, La Justicia, La Paz e El Progreso — e duas outras figuras, El Trabajo e Los Leones.

A lenda de El Familiar

Entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, arraigou-se nas comunidades de trabalhadores e nos canaviais de Jujuy a narrativa mística de El Familiar. Segundo a lenda, em troca de enriquecimento e fartura na moenda, o ser cobraria anualmente a vida de trabalhadores que sumiam durante as colheitas nos engenhos de Jujuy. Antropólogos e historiadores documentam a lenda de El Familiar como uma elaboração simbólica popular sobre a exploração laboral extrema, os desaparecimentos e a violência cotidiana nos latifúndios canavieiros. São camadas que se sobrepõem no mesmo chão — e que fazem de Jujuy uma rota de memória.

Fontes

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